Formação dos jornalistas: ainda uma incógnita

Já temos uma noção de quem são os jornalistas dos Estados Unidos e do Canadá, mas ainda há um ponto bem importante para se investigar: esses profissionais são formados no ensino superior? E em que áreas?

Em nenhum dos dois, o diploma de jornalista é exigência para exercer a profissão: pode-se contratar tanto jornalistas como indivíduos com outras graduações. De acordo com o Bureau of Labor Statistics, dos EUA, e o Service Canada (já falamos deles anteriormente) os editores costumam exigir graduação em algum campo – literatura, ciência política e economia são alguns dos mais comuns – e experiência prática.

Dados numéricos, porém, são escassos. O Service Canada afirma que 62% dos jornalistas são graduados, mas não especifica em que áreas. Quanto aos Estados Unidos, encontrei apenas uma informação, bem defasada: uma pesquisa da Asne, em 1989 verificou que 80% dos jornalistas recém-empregados nos veículos haviam feito cursos de jornalismo.

Jornalismo digital: renda, problemas e casos de sucesso

Desde que o jornalismo online começou a se popularizar, seja com sites de veículos de outras plataformas ou com veículos que só existem na web, se colocou uma questão importante: como torna-los casos de sucesso? Como fazer com que eles repercutam na esfera digital e posteriormente, tenham uma receita que ajude a sustentar os gastos que a empresa tem para produzir aquele conteúdo que entrega diariamente aos usuários?

No capítulo “Managing digital: audience, datas and dollars“, em The Story So Far, Bill Grueskin, Ava Seave e Lucas Graves, da Columbia University tentam responder essa questão por vários ângulos. E logo no início apontam um deles: a audiência. O que não é por menos. Hoje, existem dois bilhões de usuários de internet no mundo, de acordo com a União Internacional de Telecomunicações (UIT) – sendo 73,9 milhões apenas no Brasil, segundo Isso significa que há mais do que um terço da população mundial conectada, há um mercado enorme de leitores que trazem possibilidades quase irrestritas de crescimento de audiência.

Mas qual seria a chave para atrair essas pessoas e aumentar o número de acessos no site? De acordo com os autores, o segredo é saber aproveitar as oportunidades. Eles citam o sucesso do Huffington Post de Ariana Huffington, vendido no começo do ano para o grupo AOL por R$315 milhões. O site, criado em 2005, aproveitou a onda de crescimento dos blogs e, além do conteúdo criado por repórteres, também trouxe vários blogueiros associados e deu espaço para que os leitores pudessem ter um espaço de comentários livre e aberto, fomentando a discussão.

Em resumo, o Huffington Post apostou na interatividade dos usuários – e isso garantiu não só seu êxito, como o de outros veículos que também aderiram ao formato. As várias plataformas de redes sociais, como Twitter, Facebook, Tumblr e até o próprio Youtube, também garantiram isso – o fato de o usuário poder retuitar, interagir e compartilhar a informação que recebe não só o estimula a buscar o conteúdo, como também permite que pessoas, que possivelmente tenham interesses análogos ao dele, por sua vez se interessem por aquele conteúdo, o acessem e também o compartilhem, fazendo com que ele chegue cada vez a mais indivíduos pelo mundo inteiro.

Apesar de a audiência ser um componente importante para qualquer veículo de comunicação, há um fator importante que é acaba sendo o grande responsável por manter a empresa funcionando e produzindo o conteúdo: a publicidade. Os anúncios são parte significativa da renda, e não podem ser ignorados. Mas há um empecilho. A renda especifica da internet ainda não é tão volumosa para sustentar a empresa, como os autores mostram ao citar o caso da LIN Media, cujos anúncios na web representam apenas 7% do total das vendas, e de um grupo não identificado, em que esses anúncios equivalem a apenas 4%. No Brasil, a situação é bem parecida.  De acordo com o Projeto Inter-Meios, em 2008, o jornal ficou com 15,1% dos investimentos, contra 3,4% da internet.

Nesse contexto, algumas empresas buscam saídas para minimizar os gastos. O estudo aborda uma delas que é pouco conhecida, mas que tem sido bastante praticada, o pagamento pela performance do texto na missão de atrair pageviews que possam ser convertidas em renda de anúncios.

O primeiro caso é da AOL – cujo método de trabalho foi vazado para a Business Insider: “A regra de ouro da empresa é que o custo de adquirir uma reportagem não deve ser mais do que metade da quantia de receita que se espera dela“, afirmam os autores. Dessa forma,  um artigo com potencial de US$26,00 deveria custar US$15,00.

Outros portais e sites trabalham com um incentivo diferente, mas ainda ligado à performance. Na Forbes, por exemplo, um repórter pode ganhar um bônus se sua matéria for lida por um certo número de pessoas. O USA Today, segundo o estudo, também afirmou estar estudando a possibilidade de pagar bônus para os repórteres que atingissem uma certa meta.

Dentro disso, o capítulo mostra que a própria concepção do jornalista profissional tem passado por mudanças. Como resume uma passagem de Lewis DVork, da Forbes, antes, os jornalistas só tinham que lidar com as fontes, mas hoje eles precisam saber também lidar com a audiência e serem, de certa forma, recrutadores, que possam trazer novas colaborações e novos olhares para as matérias.

Ao apresentar esse panorama tão completo da atual situação das receitas e das audiências dos meios de jornalismo online, este capítulo de The Story So Far traz claramente o seu maior desafio: conseguir sustentar um conteúdo que é lido por tantas pessoas com uma verba escassa, e conseguir formas de contornar esse problema. Além disso, essa parte do estudo chama a luz para duas tendências importantíssimas para as quais o jornalismo vem convergindo: a mudança no próprio conteúdo e suas plataformas, para opções mais interativas, e a do perfil do jornalista – cujas mudanças, creio, serão mais sentidas daqui a alguns anos.

God bless… Canada!

Encontrar dados sobre jornalistas é, surpreendentemente, bem difícil. E se já o é em um país como os Estados Unidos, que tem dezenas de jornais reconhecidos mundialmente, no Canadá a coisa fica mais feia ainda. Mas é sobre ele que vamos falar hoje.

Entre tantos sites de associação de jornalistas locais, nenhum trazia dados estatísticos sobre a classe. Fui encontra-los apenas no Service Canada, um site oficial do governo canadense que traz informações sobre várias profissões.

Isso posto, vamos ao que interessa. Segundo uma média tirada entre os anos de 2007 e 2009, há 2.950 jornalistas trabalhando no país. Um numero bem baixo, mas relativamente proporcional à sua população (a população canadense é de 34 milhões, contra 300 milhões dos EUA). Deles, 56% são homens e 44%, mulheres.

A maioria esmagadora, 83%, trabalha o período inteiro. Quanto à área de atuação, 41% estão nos impressos, contra 35% de rádio e televisão. Mais uma vez, não há nenhuma menção específica à internet, mas há um dado expressivo: 6% dos jornalistas trabalha na indústria do cinema. Apenas 7% atuam como freelancers.

Quase 62% dos jornalistas é bacharel em alguma área – não é necessário diploma de jornalismo para exercer a profissão. E a média salarial, incrivelmente, é maior do que a norteamericana: $56.481 ao ano, o que dá aproximadamente $4.700 por mês.

Sobre jornalistas estadunidenses, parte 2: mercado e salários

Se no outro post discutimos a respeito do número total dos jornalistas da terra do Tio Sam e seu perfil racial, agora é a vez de trazer um panorama mais relacionado ao mercado da profissão no país.

De acordo com informações de 2008 do Departamento do Trabalho norteamericano, 53% dos jornalistas estão na mídia impressa, frente a 15% da televisão e 5% do rádio. Já os freelancers (também chamados por eles de stringers) representam 19% do total.

Nessas informações, me chamou a atenção a ausência do jornalismo de internet. Mas na tabela em que se encontram essas porcentagens, há um item de “outros serviços de informação”, onde podemos considerar que a internet se inclui. Surpreendentemente, apenas 3% dos jornalistas estão nesse ramo – mas a estimativa converge com um dado da Asne (falamos dela no post anterior), que identificou só 1.581 jornalistas trabalhando exclusivamente online.

O número baixo talvez possa ser explicado, em parte, pelo fato de que muito do conteúdo de grandes portais ainda vem de repórteres que atuam principalmente em outras plataformas do mesmo veículo. O site do New Tork Times, por exemplo, tem boa parte do conteúdo feito pelos funcionários que trabalham no impresso.

E quanto a salários? Bom, o clichê de que jornalista ganha mal também é verdade por lá. Também de acordo com o Departamento de trabalho, a média salarial anual de repórteres e correspondentes era de US$34.850 em maio de 2008, o que equivale a pouco menos de US$3.000 por mês.

Sobre jornalistas estadunidenses

Quem é o jornalista estadunidense? Pergunta difícil de responder, mas que aos poucos vai sendo respondida com dados que estão disponíveis ao público, mas são pouco colocados em um contexto.

Um censo anual realizado pela American Society of News Editors (Asne), que estuda a situação do jornalismo norte-americano desde 1978, já nos dá uma boa base sobre esses profissionais. A começar pelo dado mais elementar: quantos são esses jornalistas? De acordo com as informações de 2010, há um total de 41.600 jornalistas empregados nos Estados Unidos – e a associação estima que o número diminuiu em espantosos 13.500 desde 2007.

O estudo da Asne também se preocupou em avaliar a situação de jornalistas que fazem parte de grupos minoritários, como negros e hispânicos. De acordo com ele, entre 2009 e 2010, o número de pessoas dessas minorias empregadas em redações caiu de 5.500 para 5.300. A associação vê isso com preocupação, uma vez que esses grupos estão crescendo e o jornalismo não reflete isso.

“Os números do censo dos Estados Unidos mostram claramente que as populações minoritárias estão crescendo enquanto nossas redações não estão refletindo esse aumento. Essa deveria ser uma preocupação para todos que vêem a diversidade como uma forma mais precisa de contar a história dessa nova América”, disse  Ronnie Agnew, co-presidente do Comitê da Diversidade da Asne.

Chamando a atenção para essa questão, o estudo apresenta um dado mais preocupante. 441 das redações declararam não ter nenhum representante de grupos minoritários em sua equipe.

Deparando-me com esse dado, que não havia pensado quando tive a ideia da pauta, ficou uma pergunta: seria isso um reflexo do preconceito racial no mercado do trabalho ou do sistema educacional americano, em que as faculdades são, em sua maioria, muito caras e acabam excluindo a população mais pobre?  Apostaria em uma combinação de ambos, mas assim que investigar mais sobre a formação desses jornalistas, creio que terei uma resposta mais concreta.